sábado, 22 de maio de 2010

Simbiose

Hoje choveram palavras
para eu brincar de esconde-esconde.
Dessa vez foi eu quem resolveu
se ausentar e se exilar
num país longínquo.
Queria distância de tudo,
principalmente delas.

Hoje acordei inebriado
com os gritos e sussurros
que elas provocaram.
Até parecia mera felicidade,
todavia a tinta da caneta
não contribuía para escrevê-las.
E usei a mente!
Mentalizei-as para fugir de mim
numa simbiose fascinante
a catarse rompia com sua metamorfose
e assim esqueci
da anáfora que provoquei
quando deixei de existir,
para elas e para mim.













Aos poucos a borboleta aparecia,
rasgava seu antigo casulo
para esquecer da forma de outrora.
A vida modificando pleonasticamente!
Ressurgindo um novo viver,
mesmo sem palavras,
sem vãs filosofias,
sem significantes.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Saudades: uma odisséia

Oh! Que saudades tenho da tua face,
da beleza ardente do seu coração,
da sinceridade amiga,
da divina ilusão.
Oh! Como são numerosos
os laços de amor,
da odisséia que fazemos
no espaço sideral.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Inquietude

Sinto um manancial
a sair de minhas entranhas
consumindo-me,
devorando-me
em líquidos desconhecidos.


Suas cores lembram-se do arco-íris.
Múltiplas faces aparecem e se recriam
pouco a pouco
num processo de transubstanciação
a enlouquecer-me,
mas pondera lucidez.


A inquietude se desfaz
em cantigas medievais
e o amor se acorrenta,
se desvale, se deteriora,
se afoga e se materializa
em sofrimento fugaz.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Não quero prosa!



Não quero prosa!
Mas os versos que um dia ouvi.
Quero algo rimado,
piegas e cantado
que esteja além de nossas expectativas.


Sim, desejo a métrica clássica.
já que a ponte que construímos juntos
fora bloqueada.


Meus pensamentos visualizavam
sonetos de Vinícius de Moraes,
porém percebi que palavras
são fúteis e vazias
e que não me encaixava
naquele contexto.


Nossas vozes deixaram de existir
e um abismo se abriu entre nós.
O elo que nos ligava
fora corrompido e se enferrujou.
Sua ausência ainda doía,
embora tenha tentado pulverizar
meus sentimentos e emoções.


Restar-me-á, enfim, somente a dor, o vazio e o nada
para um dia emergir
da areia movediça
que sufocou-me
e fechou-me por completo,
deteriorando a esperança
que grudara em mim.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Diversão

Como um bando de ciganos
numa estrada
a vida que eu amo
é fazer música e jogar cartas
com os amigos.
Caminhamos em direção às estrelas,
buscando a verdadeira felicidade.
Será possível?
Não sabemos.
Buscamos diversão
e realizar puras fantasias.
Todavia você sabe realmente encontrar
a beleza astral:
as constelações do amor.

Cubismo Poético

Você ficou quadrada pelas retas a fora
medidas em círculo de amor.
Em sonhos retangulares; uma ideia caótica.

Mulheres moldadas às esculturas ibéricas,
enquanto os traços curvilíneos
provêm de máscaras africanas.
“Natureza morta com Garrafa e uma Faca”;
a matemática na literatura
a poesia fragmentada em cubos.

O “Balé Mecânico e Entreato”
nas histórias em quadrinhos
o triângulo das bermudas, o mistério!

A Torre Eiffel análoga As Moças de Avinhões;
guerreiros desenhados em tons sem claro-escuro,
impressas todas as festas arrabaldes.

Simbolismo craniano, em formas de cubos.
Cubos... cubos... cubos... redondos, quadrados...
Geometricamente hilários.

domingo, 16 de maio de 2010

Um novo período




Introduzir um período após um ponto final gera-me dificuldades, pois descobrir que palavras são apenas palavras e o que se encontra por trás delas é uma longa história.
Casei-me com quem acreditara na época ser o homem da minha vida. Vivíamos bem. Apareciam probleminhas ali e aqui, mas vivíamos e sobrevivíamos aos tremores do cotidiano. Depois de sete anos de casada, ele não me procurava como antes. Pensei que o problema era comigo. Só podia. Era o que pensava naquele triste e árduo momento. Tudo parecia estanque à minha imaginação.
Com o tempo meu marido passara a chegar tarde demais com suas roupas bastante amarrotadas e estranhas. No início fiquei encucada: era outra mulher ou mais uma de suas aventuras amorosas. Tudo iria passar, como antes. Mas não passou.
Sentia-me afogando em mares revoltos com grandes tempestades. Não sabia o que fazer de fato. Meu emprego mal pagaria as contas se resolvesse me separar.
Meus filhos começaram a perguntar pelo o pai e para aumentar o problema tinha engravidado um mês antes.
No início quando percebi que tinha engravidado sofri muito por não saber como prosseguir, mas contemplei a criação que germinava dentro de meu ventre com tamanha felicidade e louvei a Deus por isso. No entanto as lutas diárias aumentavam cada vez mais.
Imagino-me, com meus dois filhos e ainda grávida, a educá-los sozinha. Veio-me uma mera imagem acústica desse contexto e isso me deixou apreensiva e nervosa, pois não sabia de fato com quem contar nem o que dizer aos outros que sabia que meu marido gostava também de homens.
No início não desconfiava, mesmo quando ele levava os amigos para tomar uma cervejinha em nossa casa ou jogar baralhos. Ou até mesmo quando ia fazer sauna no clube que havia em nosso bairro. Até aí achava tudo normal. Minha mente não era tão turva o bastante para visualizar tal fato.
Confesso que passei a desconfiar que o príncipe encantado de minha adolescência não era príncipe nem sapo, mas uma Cinderela de calça. Ele não tinha o estereótipo do homem afetado nem afeminado, já que vivia malhando e se exibindo no espelho. Adorava, pois, mostrar o abdome definido e seus bíceps bem trabalhados e moldados. Ele se sentia o “saradão”.

       O dia amanheceu ensolarado e belo. Não havia uma nuvem no céu. E o sol reinava como rei diante daquele imenso azul. Tratava-se de um domingo de páscoa e eu ia almoçar na casa de meus pais, com meus dois filhos e meu marido. Mas infelizmente ele disse que ficaria em casa e faria um churrasco com os amigos. Irritei-me, logo de início, porque não queria ver minha casa, naquele dia comemorativo, bagunçada e ter que fazer novamente tarefas domésticas. Avisei-o mostrando minha desaprovação, mas não incitei uma desarmonia naquele momento. E deixe-o para lá. Mas frisei bem para não deixar minha cozinha desarrumada. Odeio ter que ficar lavando louça o tempo todo. Amo minha casa limpa e organizada. Não obstante, sabia que ele iria fazer uma desordem, uma vez que sempre a faz quando resolve fazer um churrasco em casa ou em qualquer outro lugar, mas principalmente em casa.
Antes de sair cumprimentou-me amorosamente. Em seguida, fui com as crianças para a casa de meus pais; porém, ao chegar lá, percebi que tinha esquecido em casa a caixa de bombons que tinha comprado para eles. Na hora fiquei chateada comigo mesma, até comentei com eles, mas como era cedo ainda para o almoço e de uma forma passaria o dia todo ali, não hesitei em pensar em voltar à minha casa.
Comecei a dizer à minha mãe na cozinha que deixaria as crianças ali com ela e passaria na feira para comprar umas frutas, pois iria fazer uma bela e incrível salada de fruta, contudo isso era pano de fundo para eu ir até minha casa e pegar a caixa de bombons que tinha esquecido em cima da geladeira. Assim tudo aconteceu.
Ainda sentia enjôos constantemente, mas eu queria fazer uma surpresa aos meus pais e não estava disposta a comprar outra caixa de bombom. E o mais engraçado que cheguei a pensar nessa hipótese, no entanto relutei e bloqueei tal pensamento, uma vez que permanecia obcecada por aquela caixa de bombons que tinha comprado.
Antes eu tivesse comprado outra caixa de bombom, mas não fiz isso. Ao chegar em casa, abrindo a porta normalmente, sem maldades e a procurar o que desejava, resolvi, não sei por que, passar um batom e a pentear os cabelos, como sempre faço ao sair de casa. Acho que é mania de mulher isso. Passar batom e pentear o cabelo sempre antes de sair. E ver a própria imagem no espelho para averiguar se estar pelo menos bonitinha ou para se sentir bonita mesmo. Ou para tentar se mostrar viva e atraente.
Então fui até o quarto e deparei-me com a cena mais constrangedora de minha vida: meu marido encontrava-se em nossa cama com outra pessoa. Fiquei imóvel. Pasma e estarrecida. Não houve reação alguma. Chocada e perplexa fiquei com tal visão. Ele, ao me ver, disse que não era aquilo que eu pensava e me pedia desculpas ciclicamente.
Naquele momento, estática e sem saber o que fazer ou até mesmo o que falar, sai do quarto e ele deixou seu amante (que já tinha se levantado da cama e parecia nervoso tanto quanto) vindo atrás de mim. De relance, ao sentar no sofá, disse três palavras apenas “Arrume as malas.” e em seguida alternei afirmando “Ou saio eu.”.
Parecia que um vendaval tinha acontecido naquele momento em minha vida, tirando-me de órbita e também o sossego. Jamais me imaginei ser traída. Não importa o contexto da traição, pois tautologicamente traição é traição e ponto.
Sofri muito. Chorei horrores e de forma copiosa. Nunca desconfie dele e nunca acharia que passaria por tal situação forte e grotesca. Fui traída mesma. Naquele instante não importava quem estava sob os lençóis, pois não confiaria mais nele nem conseguiria olhar, como antes, em seus olhos.
Foi um dia angustiante. Mas naquele dia ainda voltei à casa de meus pais para almoçar com eles, com as frutas que tinha comprado ainda na feira. Nem sei como que as escolhi. Foi terrível para mim. Sentia-me exaurida com o que presenciei. Fiz tudo na cozinha calada. Sei que minha mãe tinha notado algo de diferente comigo, pois ela me conhece na palma de sua mão. Tentei me acalmar o máximo, porém não agüentei e desmanchei-me toda. O choro veio à tona causando uma forte erupção de lágrimas. Minha mãe foi a primeira a saber do ocorrido e depois meu pai, o qual ficara atordoado e queria tomar uma atitude machista, mas logo disse que violência só pioraria e que não desejaria que ninguém fizesse algo impensado, agressivo e que eu já tinha agido de forma sábia e madura em relação à traição. Até porque não faço o tipo de “rodar a baiana”, de “baixar o barraco” ou a que “desce do salto”. Jamais iria me expor ao ridículo.
Foram meses sofrendo. Não posso negar que sentia falta do meu marido em minha cama. Infelizmente agora é só minha. Havia um vazio imenso ao meu lado, mas sobrevivi ao caos e procurei não me sentir sozinha, junto com amigos, filhos e pais. A família foi quem mais me apoiou verdadeiramente durante esta nova fase de minha vida. Foi dura. Mas tinha que continuar. Confesso ainda que o amava muito, mas preferiria ficar sem um parceiro a ter que me sujeitar a uma Cinderela de calça ao meu lado. Queria mesmo alguém autêntico. Alguém que nunca tivesse se escondendo dentro de um armário para mostrar ainda ao universo que o rodeia sua masculinidade (ou falsa). Jamais iria imaginar que o meu príncipe encantado da adolescência, por meio de suas lindas juras de amor, pudesse me decepcionar profundamente.
Desmoronei-me por completo, entretanto antes só que mal acompanhada. Não quero uma Cinderela comigo, uma vez que sempre desejei ser a Cinderela. Por isso, refaço-me a cada segundo. O tempo não pára. Tive que estabelecer prioridades e metas em minha vida e segui-las a fundo. Sem esmorecer. Foi difícil e ainda é. Mas não podemos retroceder nem viver de passado ou plantar ilusões em nossa caminhada. Nessa caminhada eu tenho o poder de escolher a melhor estrada. Sou eu quem escolhe as árvores, afirmando para mim mesma se são frutíferas ou não, para serem plantadas. Sou eu quem constrói e estabelece o devido asfalto ou se a prefere que seja de estrada de chão. A decisão é minha! Não compete a ninguém viver por mim. Sou eu quem tem que viver por mim mesma, pois sou única e exclusiva na face da Terra. Sei que problemas haverá, todavia temos que enfrentá-los sabiamente. Assim o período termina a fim de que eu possa virar a página e escrevê-la como eu bem entender. A construção de uma nova página será exclusivamente minha e de mais ninguém. Não existe destino nem acaso. Ou tudo é implantado por Deus ou, de fato, é decisão humana. Sou eu quem tece as escritas de minha vida a partir do momento que desejo escrevê-las e vivê-las. Sei que Deus proverá futuramente, mas não se pode ficar de braços cruzados esperando o mundo girar e o tempo – que já escasso – chegar ou findar-se. Não se pode ficar remoendo e se ressentindo a todo o momento, visto que precisamos dar continuidade e a prosseguir, mesmo com enfados e tristezas. Não se pode deixar de viver por causa de outrem.
O mais difícil foi perdoar, uma vez que ele era ainda o pai dos meus filhos. Mas não o desejava mais por perto. Faltava-me pulverizá-lo completamente. E, aos poucos, percebi que eu era mais importante para mim.
Assim, virei a página, deletei o que não prestava, restitui meu horizonte de saber e procurei me reconstruir do pesadelo o qual vivi. Mas não foi fácil. Nada é fácil. Não obstante, sobrevivi para buscar verdadeiramente a felicidade.

sábado, 15 de maio de 2010

Mercado da ilusão


Vou ao mercado da ilusão para encontrar beijos molhados para a noite de meu bem. Lá há os melhores anjinhos para guardar nosso amor. Portanto, não há necessidade de roubá-los de mim, já que existe o bonde do entusiasmo para levá-lo ao Céu e deparar-se com a ilusão. Escolha-a com cautela e animação para que consiga o mais importante de todos os afetos e sentimentos.
Ao chegar lá, feche os olhos, conte até três e comece a escolher o que lhe desejar. Não se preocupe com os alavancos do teletransporte da imaginação nem com as sacudidas, pois precisará revestir-se da mais interessante quimera para achar o que almeja. Boa sorte nessa caminhada e não se esqueça de usar o cinto de segurança para não se prender no espaço sideral dos desejos. Vá e volte seguramente, mas para chegar será necessário se esvair do todo mal para que o bem se estacione em seu coração e consiga encontrar o que procura: a felicidade.





Parodiai Aforismo do Conhecimento





Vinde a mim quem tem fome
e sede de conhecimento
que eu vos darei.

Páscoa!







Minha mulher ficou grávida!

sexta-feira, 14 de maio de 2010

“Amanheceu, peguei a viola, botei na sacola e fui viajar”.

Aprendi a viajar nas letras e no cotidiano da palavra cantada e percebi que ela serve de alicerce para soltar a voz. Uma melodia toca com o raiar do dia ao descobrir que sou cantador de ritmos, pois somente o violão dos escribas desfralda o som da madeira por meio de vocábulos.
Não há raiz mórfica ao amanhecer, mas significados excepcionais e modais, visto que a palavra cantada revela-nos a essência do ser mostrada pelo poder do sol e pelo calor do prazer que invade, arde, queima, encoraja e carece de cantar. Escrever é puro prazer e violar é transgredir a semântica das palavras.

O poder do riso

O mais interessante é descobrir humor e olhar com um novo horizonte os estrondos dos celulares. Eles me fazem rir e suavizar o ritmo dos transeuntes, que hipocritamente homofóbicos transpassam pelas ladeiras, escadarias e ruas.
Rir faz bem a alma, pois revigora o espírito e o coração. Rir deixa-nos próximos de Deus, próximos do amor, próximos dos familiares, já que serve de alimento para novas tessituras que aos poucos sacralizam-se e transformam-se em cristais e poderosos diamantes.
Agora tudo se renova, visto que a fugacidade ao nosso redor acabou em piada. Eis a grande hilaridade!
Ao passo que entoado o riso, o mundo se esvai e se perde ao nada, uma vez que se descobre um novo ardor missionário.
Como as rugas deixam marcas na face e no corpo envenenando-nos, não se permita adoecer nem envelhecer. Ria de tudo: dos toques aglomerados, dos breves e falsos ruídos bem empacotados e das fitinhas com lacinhos cor-de-rosa.
Aproveitem das meras imagens hiperbólicas (ou quase) para retirar, com riso, aquelas assombrações e fantasmas para se revigorar; dessa forma, também, do caos também se aproveita o riso, o sorriso e o olhar.
Restaura-se quando se vir com outras formas os meros barulhinhos; equaliza-se a melhor frequência para o riso e assim se constrói os castelos medievais do saber.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sonho



Ação
Alimentação
Doce ilusão.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O pote e o seu interior

Que mimo aquele pote de vidro!
Flores ornamentais cintilavam
e o enobreciam,
pareciam tulipas a enfeitar.
Pena que os biscoitos recheados de ternura
chamavam mais atenção
do que o objeto.
Algo singelo havia na imagem transparente.
Sua tampa de madeira
envernizava o brilho do recipiente.
Lustre de minh’alma!
Projeto arquitetônico da gastronomia encontrava-se nele,
pois descobriu-se o poder do achocolatado,
repleto de sabor,
oriundo de saber e precisão.
Guardava delícias variadas
com adornos ricos em proteínas
e aos poucos fluíam desejos loucos.
Prová-los tiraria sua beleza,
mesmo que sempre estivesse em construção.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sob o chuveiro


Sob o chuveiro éramos um só corpo, uma só alma. A água molhava nossa pele enquanto nossos lábios tocavam desejosos. Havia tanto carinho quanto frenesi e amor. Nosso jeito de fazer ia além dos nossos corpos. Tudo se transcendia por meios de toques. Eram translúcidos nossos desejos íntimos e carnais. Havia por trás dessa aliança fortes sentimentos ardentes, visto que o calor de nossa paixão era abrasado por cada abraço, por cada beijo, por cada afago, fazendo-nos arder em chamas.
Juntos não havia tempo o qual perdurassem os problemas, uma vez que ali encontrávamos para compor nossa história, nossa orquestra, nossa sinfonia e para ritmar nossa relação. Havia cumplicidade e corpoeticidade em nossa união, em nosso belo e intenso coito amoroso, já que pareciam mágicos nossos desejos se encontrando e se reencontrando com todos os movimentos que criávamos ali.
Nutríamos de sensibilidades quando nossas mãos acariciavam embevecidamente o anelo. Comungávamos pensamentos e imaginação à medida que crescia a vontade em permanecer juntos e a dividir excitantemente o mesmo espaço e a somar corações. Multiplicava-se aqui nosso gozo mais lauto. Era uma intensa alegria que emanávamos a cada palavra sussurrada ao ouvido. Puro êxtase dos deuses, visto que sentíamos inebriados por esta fusão.
Amávamos de forma tão fervorosa e veemente que não queríamos nos separar e permanecíamos enlaçados por tal vibração e encanto. Desejávamos a cada momento mais. E mais. E mais. Até percebermos que a vida continuava além do cômodo e que tínhamos que concatenar nossas ideias afins para o dia seguinte ser melhor, para que nosso prazer exalasse mais tenras vontades de buscar um ao outro e sentir necessidade de nos presentearmos cada vez mais.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ponto final

Tudo escapou de mim num piscar de olhos. E não sei o motivo que me fez perceber o quanto a tua ausência descoloriu as paredes de minha casa, apagando as luzes do meu quarto paulatinamente. Sozinha fiquei, pois meu amado partiu despedaçando-me por completo.
O travesseiro fora virado várias vezes pelo avesso quando as lágrimas inundaram meu rosto. Encontrava-me desnorteada e minha cabeça efervescia numa enxaqueca emocional, crescendo rápido e ligeiro. Minha imaginação febril se esvaiu e morri para mim mesma a fim de me redescobrir depois. Eram longos devaneios que surgiam e, aos poucos, aumentava-se o estágio de dor que havia dentro de mim.
Enclausurada fiquei e comecei a odiar os raios solares, a desvalorizar meus cabelos, a perceber que havia algo de errado com meus seios, a me sentir feia, gorda, carente, desprovida e destituída completamente de sentimentos turvos. O perfume das flores causava-me náusea, uma vez que tudo me incomodava. Deixei, por um tempo, de existir.
Houve um momento que quis ser Amélia, a mulher de verdade, outro que desejei ser Sophia, para alcançar a sabedoria e atingir o grau máximo de conhecimento. Pensei também em ser Maria, no entanto percebi que não tinha a vocação para receber o título de “a escolhida”. E com tantos nomes em mente, afastei-me de mim, pois me sentia horrorosa e triste.
Chorei muito por não saber quem eu era, visto que a mulher que imaginei que fosse já não existia mais. Veio a ansiedade e entreguei-me à tentação: chocolates. As espinhas apareceram e acabaram com minha pele veludosa e macia. Engordei horrores! Com o tempo, percebi que tinha me tornado uma uva-passa. Envelheci por ausentar-me de mim e por deixar o sofrimento emanar e tomar conta de meu ser.
Caminhava sem rumo pelas ruas. Tudo se perdera e me vi com depressão. Deixei de pensar e de existir, uma vez que nada havia sentido para prosseguir.
Maquiagem passara a ser uma espécie de máscara, pois tinha vergonha de me mostrar. Tentava sempre fugir de mim mesma e quando me olhava no espelho percebia-me vazia, sem vida e ausente de tudo.
Minhas amigas começaram a imaginar que eu tinha alguma doença contagiosa e se afastaram de mim. E veio a solidão. Mas esta solidão não era pela saudade que sentia (ou fingia ter), mas por não saber quem eu era. Por isso comecei a ter novas faces e a cada fase lunar mudava plenamente de personalidade. Quando não era Amanda (digna de ser amada) era Gabriela (a enviada de Deus). Não sabia o que fazer para mudar tal situação. Não queria ser somente a mulher meiga, doce, graciosa e elegante nem ser a Madonna que havia em minhas entranhas. Mas quando esta baixava em mim virava uma pantera. A fera saía para fortalecer a torre que nascia em mim. Não queria ser uma mulher de fases, entretanto não sabia o que fazer para modificar-me.
A cada mulher que eu me tornara, fazia-me desaparecer por inteiro. Cheguei a desejar todas ao mesmo tempo, contudo percebi que não era eclética o bastante para me criar e recriar sempre. Todas iriam me confundir com tamanha personalidade múltipla.
Pensei em desistir de mim e me atirar de uma ponte ou atravessar o sinal assim que os carros tivessem em alta velocidade. Mas no fundo eu necessitava de mim. Eu precisava dar oportunidade a mim mesma e a lutar por esta existência. E um dia fiz as pazes com o sol e resolvi me entregar à vida, ao entusiasmo, à esperança e a me amar.    Isso mesmo: amar-me. Eu vi que sempre havia escondido em meu íntimo a graciosa Ana. Poderia ter escolhido ser qualquer outra, todavia, nesse exato instante, era a que combinava comigo.
Depois de um tempo, que o amado se foi, percebi, como Ana, que ele não tinha mais importância e que outros viriam e sabiamente escolheria aquele que não tivesse o estereótipo e o protótipo dos contos de fadas. E sozinha, comigo mesma, com meus botões, amando-me tanto, passei a viver e a valorizar toda graça que havia em mim.
Assim, as outras personalidades e fases se extinguiram e voltei a mim. Não havia mais banalidades e comecei a construir meu próprio horizonte e a imaginá-lo sem fim, uma vez que nem a morte separar-me-ia de mim. Lutei arduamente e me venci para ser a mulher que escolhi ser. Mulher sem reticências, sem dúvidas e sem neuras. Mulher e ponto final.


domingo, 9 de maio de 2010

Traduz-me que traduzo-te!



Traduzir-se para mim,
para ti,
para o mundo
o obscuro,
o incolor, o transparente,
a pele,
a ferida, o machucado.
E aos poucos construir outro universo.
Moldá-lo,
poetizá-lo,
configurá-lo
e limpar a poeira
escondida debaixo do tapete.
E assim criar novas rimas,
mudando o ritmo
e as batidas do coração,
pois o pulso ainda pulsa
e arrebata-me com cifras melódicas,
gerando performance,
corpoeticidade
ao dar vida a voz cantada e declamada
pelos movimentos cíclicos
da tradução.
Traduz-me
que traduzo-te
mesmo que seja somente na imaginação.

Haicai da verdadeira Mãe






Todos os dias sempre
manifesta seu amor
protegendo o filho.





"Feliz dia das mães!"

sábado, 8 de maio de 2010

Metáfora da loucura

“Transferência”, “transporte”,       “indução” e “analogia” definiram a metáfora e o poder de comunicação por trás dela. Ela é tão corriqueira que muitas vezes não a percebemos e não a analisamos como deveria. Assim também é a loucura, e como efeito metafórico depressor e pungente age no cérebro em grandioso número de neurônios, que esquecemos de pensar ou quando pensamos apoderam-se deles por meio de leituras labiais.
Só que para adentramos na metáfora da loucura temos que falar da observação ao nosso redor e do teor excessivo de contrastes que ela mesma prolifera e cria, a ponto de percebermos as combinações sórdidas, nocivas, levianas e “lascivas” (mera transferência de vocábulo com valor estético) de significação.
Então agora imaginemos que paredes falem e escutem. Eis a metáfora perfeita para a construção da loucura, pois o louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes nem há nada em volta dele. Ele se reitera da imaginação para fazer a sua realidade e criar assim, como lhe couber, sua devida metáfora. Ele se transporta para um universo reengendrado fora do campo magnético de sua própria criação. E assim começa a imaginar abutres em sua volta e outras aves de rapina a persegui-lo.
Com efeito estético, a metáfora ganha vida. O mais estranho nas palavras é descobrirmos que elas, mesmo longínquas, pronunciam em coro a morte do louco pelas paredes. Sim, elas falam e escutam e no momento invadem pensamentos em construções e montam armadilhas para enlaçar a loucura e a observação num mesmo processo de similaridade.
Assim manipulam a presa a ponto de repartir o sudário revestido por ela. Falso sudário! (É outro transporte metafórico para transferir o significado da falta de limítrofe). E a loucura se constrói em pinceladas para demonstrar a ojeriza oriunda de uma força latente e manifestação de poder. Será por quê? Talvez por não ser capaz de concatenar corretamente as idéias e gerarem falsos testemunhos e criação imagética. Talvez também as vozes sejam simples ilusão de ótica. E se é ilusão, perde-se o encanto e a falsa força estipulada e medida por ela. E se essa metáfora é imaginação, posso afirmar que é loucura e assim a é. Não há enigmas indecifráveis para aquele que se encontra na loucura, já que a compreensão absurda e inversa de valores não existe.
Dessa forma, tanto o verbo quanto a metáfora tornar-se-ão letras e trabalhar-se-ão o valor semântico da loucura no contexto que lhe apraz. E se não lhe apraz, defenda-te.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Dom


Cada momento perceba a grande ferida
que há em seu coração.
Sinta vontade de ver a estrela brilhar.
Doerá todas às vezes
que as núpcias do cordeiro se esvair.
A razão é prudente demais
pois procura o dom da paciência.
Mas permaneça em sua vocação.