sábado, 12 de junho de 2010

O palhaço

Hoje algo inusitado aconteceu: ganhei meu primeiro presente de um palhaço. Literalmente, palhaço fiquei com o nariz vermelho. Parecia outra simbiose entremeada de palhaçada e seriedade. Não houve risos, mas sorrisos. Quem será que se encontra por trás daquela pintura, daquela maquiagem, daquela máscara? Como aconteceu tamanho malabarismo em volta de mim? Não sei. Só sei que não houve o pranto de Vinícius nem o soneto de construção engendrado por ele. E o fantástico se fez e se construiu em alegria e risos após a completa palhaçada formada e crescida, aos poucos, após análises dos acontecimentos. Viva o presente! Viva o palhaço que há em mim e em ti!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Namorar todos os dias...

Os anos passam e se percebe o quanto o comércio ganha vida em data festiva. Não basta o tempo natalino, o dia das mães e dos pais, a páscoa para ele, uma vez que o mundo capitalista precisa “rodar” e continuar com seus preparativos para enfeitiçar pessoas de toda parte.
Com as proximidades do dia doze chegando, comecemos a refletir sobre o efeito mágico que se perde em gasto para estabelecer vínculo com o que se diz prazeroso. Sabe-se que é simplesmente uma data e que infelizmente não é comemorada todos os dias, como deveria.
Com efeito, falar-nos-emos de amor. Onde será que ele se encontra agora? Será que ainda é sentimento? Será que é sentido verdadeiramente entre os corações ou sempre vem descolado com a promiscuidade (claro que não vem!), com o falso juramento, com a valorização do eu. Puro egoísmo pensar desse jeito. Mas namorar deveria ser todos os dias. A partir do momento em que duas pessoas dizem se gostar e querer estabelecer um elo, uma fusão, um relacionamento, um vínculo, começa-se a magia, visto que o egoísmo deixa de existir para dar lugar ao duplo, ao par, ao casal (que fizera um juramento para compartilhar emoções, sentimentos e vida em comunhão).
Por meio desse prisma, avaliemos o formato do objeto que o casal usa para ratificar seu compromisso: uma aliança. Desde o próprio namoro até a chegada ao casamento possamos ver, que muitas vezes, esse compromisso representado por uma circunferência: sem pontas, sem fim, marcando a rotatividade de duas vidas que se juntam para compor uma valsa – partitura e melodia. A partitura não existe sem melodia. Toda melodia requer notas, arranjos, que podem ser modificados, moldados, melhorados a cada dia de acordo com o tom que se estabelece para a construção diária desse sentimento chamado amor. Todo dia é dia de orquestra sinfônica. É dia de sorrir, de brincar, de falar sério, de se arrepender e de pedir perdão. É dia de se ter esperança e de acreditar em que tudo irá melhorar. Não se importando se fala ou canta como os anjos nem de fazer concessões a uma série de obstáculos que podem fazer se perder por tal emoção. Mas todo dia é dia de namorar, é dia de compartilhar desejos, é dia de distribuir flores à amada e a convidar para prestar atenção aos mínimos detalhes que se encontram ao redor: observar a natureza, ouvir os passarinhos a cantar, ver o leito do rio com sua correnteza forte a passar e saborear o melhor prato, vestir a melhor roupa e dizer sempre as três palavras saborosas que contagiam o universo: “Eu te amo!” Tudo deveria se transpor, porém palavras o vento leva. No entanto, são com as dificuldades que se constroem os melhores alicerces para um relacionamento maduro, coeso e harmônico. Toda sinfonia precisa de harmonia para não ferir aos tímpanos. E assim é o amor. Ele suporta tudo: sofrimentos, alegrias, depressão, tristeza, entusiasmo.
Aos poucos descobrimos que viver a dois é compartilhar ideal, estabelecer metas e prioridades. É, de fato, ser um só ser. Mas, infelizmente, isso tudo é utópico; pois a realidade é dura e cruel, às vezes. À medida que se encontra junto é para criar um universo onde, mesmo com dificuldades, o amor se sobressaia. Amor requer fidelidade. Será que somos fiéis aos nossos desejos de comum união? Será que a vida que escolhi a dois é realmente a dois? Será que estou maduro o suficiente para o namoro? Para namorar todos os dias? Para criar laços com a pessoa que escolhi para mim? Isso não se tem uma resposta precisa, já que cada pessoa é uma. Não se pode engendrar uma receita e dizer sigam-na. Não se pode sentir pelos outros. Não se podem julgar sentimentos, mesmo não sendo verdadeiros, porque cada um é um. O que se deve fazer é realmente senti-los e vivê-los todos os dias como cada um escolheu. Não obstante, ninguém escolhe os sentimentos, pois eles não se escolhem, mas se senti.
Em suma, cada ano que passa vislumbramos o dia 12 de junho e comemoramos em nosso país o dia dos namorados. Só sabemos que o verdadeiro amor vincula-se ao respeito, ao prazer de estar junto porque amar de verdade é compromisso. E assim a aliança se constrói diariamente, mesmo com arranhões, a fim de que cada dia seja melhor; e se não for, não se preocupe, é sinal que você se encontra com a pessoa errada. É sinal que você não teve discernimento para uma vida a dois, pois viver com outra pessoa não é fácil. Mas nada nessa vida é fácil. Seríamos hipócritas se afirmássemos que tudo são flores. Só que todo dia é dia de renovação ao amor. E se renovar requer cuidado, diálogo, bom trato, animação e bom humor.

domingo, 6 de junho de 2010

Haicai da Liberdade



Um pano vermelho,
talheres sobre a mesa
a me conquistar.

sábado, 5 de junho de 2010

“Liberta-te que serás também”


O mundo apresenta-se inerte
perante o teu olhar
suave, compassivo, plácido.
O brado retumbante
libertou-te das correntes fugidias.
Os canários cantavam
o canto mais doce
de quimeras mil.
Tratar-te-ei aos moldes medievais:
performance, voz, tradição, memória
ao te olhar diante
do supremo sentimento
que fora recalcado;
no entanto, forte és teu castelo de cristal
que se derreteu paulatinamente
por meio de uma chorosa alegria.
Um lado teu é severo,
áspero, varonil e inverossímil.
Outro lado é verdade, paradoxal,
onde encontrei tua identidade.
Perdurar-se-á através das múltiplas identidades
por toda vida
singelo oxímoro, ilusão.


sexta-feira, 4 de junho de 2010

Alteridade em mim

Mundo distante,
cruel,
sem nome,
sem rastro,
que apodrece vidas
e onde o amor se esvai.
Esquecer dói!
Num tom ébrio
sinto o desvario ardendo em chamas.
Não consigo lutar!
Febre mórbida!
Loucura insana!
Onde se perdeu minha identidade?
Quem me roubou de mim?
Devolva-me.
Por que tanta alteridade em mim?
Não sou nada: nem pó nem vazio.
Talvez seja o absurdo
da mente de um biltre alienado,
aniquilado e metrificado pelos açoites.
É a solidão que arde em meu peito
que escreve.
E sinto que estou cada vez
mais próximo da morte.
Para quê? Nada faz diferença em mim!
Estou vulnerável ao nada, ao vazio, ao caos.
A morte tornou minha psicologia neste momento.
Pena! Tornei-me insignificante:
sem fome, sem arte, sem cor, sem perfume, sem luz!



quinta-feira, 3 de junho de 2010

Avesso do avesso


Nesse mundo conturbado
não sei buscar a melhor e verdadeira identidade
nem o eu nem o outro se esconde de mim.
Tua face fugia de mim
e amanheci só,
sem seus olhos para contemplar
encontrei-me vazio.
Pura penumbra
havia em meu coração,
dilacerando-me
e queimando-me
paulatinamente.


Tentei fugir de mim e do outro,
porém não consegui.
Pensei em esperar
quando me pediu
mas vi que foram palavras vãs
e promessas não foram cumpridas
e tornaram-se meras e vazias.
Há alteridade nos escombros
Contrapondo-se à minha identidade.
Onde buscá-la?
Como a diluiu?
E os números e registros
de nossa imaginação
se perderam,
virando-se pelo avesso.


A tristeza concebeu o drama
e a melancolia a depressão.
Caí numa dimensão
além da metafísica
tentando buscar-me sem solução.
Até o dia em que seguraste
minha mão para eu prosseguir
e quando voltei a mim
nossos olhos se desencontraram
para que me cegasse
e deixasse minha vida um caos.
Lutei. E muito.
Mas não consegui, enfim, continuar
e na solidão permaneci.






quarta-feira, 2 de junho de 2010

Devolva-me!

Devolva-me o que me roubou de mim:
as emoções, os sentimentos
que foram oprimidos,
recalcados e reprimidos.


Há alteridade em mim
se me encontrar pelo caminho
traga-o a mim,
liberte-me das amarras
que foram mal concatenadas.
Se avistar minha miragem
deleite-a e contemple-a
mesmo que seja na dor,
no caos, no vazio,
no tudo, no nada.


E quando voltar ao pó
devolva-me.
Roubaram de mim
meu próprio reflexo,
minha imagem
e a vida engendrada por Deus.


Devolva-me
a verdade sobre o amor,
as maneiras simples de dizer “Eu te amo!”,
a alegria de cantar
e no mais longínquos dos abismos

encontrar-me-ei novamente.


Se tua palavra penetrar na minha
que seja para frutificar

a ausência de mim,
que se perdeu,
que ecoou e bradou
pelo mundo afora.


Devolva-me
pois não sei se sou o eu ou o outro
nesse horizonte amargurado.
Buscar-me-ei mas não achei,
bati em alguma porta

e as fecharam para mim.
E janelas circunscreveram “nulo para ti”.


Nessa caminhada árdua
não tirei palavras para me direcionar.
Fui ultrajado pelos açoites,
rasgaram minhas vestes
porque deixei de buscar-me
e tudo deixou de ser arte,
canção, cumplicidade, amor e performance.


Desejo meu eu
preciso dele para existir
pois roubaram de mim
minhas alegrias, meus entusiasmos,
minha mocidade,
minha oblação e os pertences da alma,
intrínseco em meu ser.

E agora só me resta o nada
e o mais nada.


E ao pó massacrado voltei.