segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Prima Vera!


Vera encontrava-se ébria e animada para adentrar no recinto. Algo mirabolante iria chegar depois do dia vinte e três. Seria sua prima, repleta de flores e entusiasmo? Não se sabe... o frio ainda paira nos confins da terra. Ela até tentou regar suas plantas com o pó do pirlimpimpim da Emília, mas a Cuca tinha lançado um feitiço para que o inverno prolongasse em outras estações.
Saber se adaptar ao ambiente requer malabarismos e cuidados. Não é fácil enganar o frio que nos aflige com sua secura em lábios tortos. No entanto é preciso florir! É preciso virar a página da ignorância e penetrar no recinto da sabedoria. Algo contagiante almeja se multiplicar e rejuvenescer corações. Eis a metáfora da prima Vera! Florida, florescente, contagiante, sinestésica engendravam-se gradações de perfumes que se embrenhavam nas narinas calorosas: um falso odor com florais.
À medida que o vento suave e frio, num teor forte e mórbido, perpassa as barreiras das fossas nasais, tudo se escandaliza em poesia, imagem, som, gosto e luz. Esta organiza os raios solares tecidos com a figura de linguagem de aquela. Nasce o entusiasmo. Entretanto é necessário parir emoções nada fugazes para embalar a mão que cuida de novos saberes.
Enfim, enquanto o frio não nos deixa, todos esperam a chuva de prata que regará a nova estação.
Seja bem-vinda prima Vera! A nossa musa floral!


domingo, 28 de agosto de 2011

Persona(gem)


O tempo passa rápido e percebo que determinadas situações são únicas de serem vividas. Novos personagens ganham um novo enredo, novos conflitos e um clímax que mostram um magnífico eu. Irei ser outra pessoa. Não quero mais o figurino de sempre nem a mesma oratória.
A metástase foi lançada entre todos que vivificam a arte lida e a ideia contagiante da escrita. Figuras de linguagem proclamam elipses, metáforas e grandes alegorias, visto que me transformo num outro ser e assim ganho nova vida, com uma importante história para tecer o maravilhoso das palavras vãs.
Bate um vazio em mim! Porque a poética não chega ao meu coração nem na minha alma. Tudo se esvai e desmorona facilmente com vocábulos tortos que exalam eroticidade. Quero também de volta o Neruda que você me tomou e não leu, já que a vida translúcida perpassa horizontes amorosos.
Rasgou os sete véus que vinham sobre meu rosto. Tenho vergonha de mostrá-los e a burca prenderá minha beleza e esconderá a falsa estética que há em minha religião. Arrasto as correntes do pecado a fim de que possa me surpreender com lisonjas e sofrer com a escravidão e minha negritude. Temo a morte, o poder dos policiais corruptos e da falsidade das pessoas. Não obstante, tudo é efêmero e fugaz.
A tenacidade da vida engendra-me grande paladar e meus olhos já não podem enxergar mais. Meu batimento cardíaco acelera, porém me descubro calmo e volátil com sua partida.
Enfim, cabe agora buscar-me nas entrelinhas de um passado ofuscante que se perdeu. Tudo realmente mofou, escureceu e virou pó, todavia há um novo momento de brilho no ar; portanto, cabe, a cada um, a conquista dos atos e receber os aplausos no final da peça teatral.


sábado, 30 de julho de 2011

Fugidinha

Fogem palavras que invento
e que sussurram ao meu ouvido
paulatinamente.
Perco-me os sentidos
por meio de uma nuvem negra
que me agarra,
que me açoita
e maltrata a alma,
dilacerando-me os dons
do meu personagem de ficção.


Evaporam ideias que arquiteto
na minha mente quieta
e inexoravelmente
idealizada e bolada de prazeres
mais lautos.
Faço-me canção
para escapar do tédio
e jogo cartas
para obter a melhor canastra
e aos poucos me refaço por inteiro.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Carrossel

Voltei
para entoar
a nova
canção
de amor
din don
bate
o sino
pequenino
blim blom blem
nos
corações
aflitos
daqueles
que
acreditam
na metáfora
do vai-e-vem
do carrossel
da imaginação.
Escolha o seu!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Rei do Som

Todos os dias estava eu longe dos outros. Subia uma montanha com meu cachorro vira-lata e ficava debaixo de um arvoredo usando minha imaginação. Meus dedos se tornavam mágicos e ganhavam vida num movimento e acordes que soavam por toda cidade que eu morava.
Os moradores ficavam perplexos com aquele som, pois dele surgiam os rumores do vento, as vozes das lavadeiras no rio cantando e trabalhando, o galopar dos cavalos e o canto dos canários da terra a modificar os ares.
Enquanto os meus dedos se mexiam, o cachorro sentava paralisado a minha frente e com as orelhas franzidas, sem movimento a contemplar o som que saia dos meus dedos mágicos.
Tudo parecia fora do comum e do normal. Toda a cidadela ficava incomodada com os meus truques e me comprou de presente um violão. Eu acariciei a madeira listrada e de belo acabamento e disse:
- Que bom! Agora tenho dois.

sábado, 2 de julho de 2011

Ursinho Pimpão

Venha ursinho Pimpão
dançar comigo a noite toda,
alegrar meu coração
com seus loiros cachos
e enfeitar meus desejos da carne.


Venha ursinho Pimpão
conter-me de entusiasmo,
enxugar minhas lágrimas
que se encontram extasiadas
pelos açoites da vida,
nesta linda manhã de inverno
onde as borboletas fogem do frio.

Venha ursinho Pimpão
aquecer-me com seu pêlo
que mais parece um cobertor
sinestésico, quente e repleto de amor.


Venha ursinho Pimpão
deliciar-me nesta ilha paradisíaca
e deitar em meus braços
para que juntos formamos
o verdadeiro anelo
circunscrito na alma
e em minhas reminiscências.

sábado, 25 de junho de 2011

Drummond, quanta saudade!

Sinto saudades do Drummond,
De suas caricaturas perfeitas,
De seus sonetos brancos e livres
E do “E agora, José?”

Sinto falta do sotaque mineiro,
das aventuras poéticas,
da nota de cinquenta cruzeiros
e da pedra que havia no meio do caminho.


Sinto inveja de seus versos,
Do expressar irônico de sua leitura,
Do erotismo decadente de sua postura.


Sinto n’alma o espírito vagar, stop:
A vida parou em claros tons e sons pornográficos
De rimas que viraram mito.