sábado, 22 de maio de 2010

Simbiose

Hoje choveram palavras
para eu brincar de esconde-esconde.
Dessa vez foi eu quem resolveu
se ausentar e se exilar
num país longínquo.
Queria distância de tudo,
principalmente delas.

Hoje acordei inebriado
com os gritos e sussurros
que elas provocaram.
Até parecia mera felicidade,
todavia a tinta da caneta
não contribuía para escrevê-las.
E usei a mente!
Mentalizei-as para fugir de mim
numa simbiose fascinante
a catarse rompia com sua metamorfose
e assim esqueci
da anáfora que provoquei
quando deixei de existir,
para elas e para mim.













Aos poucos a borboleta aparecia,
rasgava seu antigo casulo
para esquecer da forma de outrora.
A vida modificando pleonasticamente!
Ressurgindo um novo viver,
mesmo sem palavras,
sem vãs filosofias,
sem significantes.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Saudades: uma odisséia

Oh! Que saudades tenho da tua face,
da beleza ardente do seu coração,
da sinceridade amiga,
da divina ilusão.
Oh! Como são numerosos
os laços de amor,
da odisséia que fazemos
no espaço sideral.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Inquietude

Sinto um manancial
a sair de minhas entranhas
consumindo-me,
devorando-me
em líquidos desconhecidos.


Suas cores lembram-se do arco-íris.
Múltiplas faces aparecem e se recriam
pouco a pouco
num processo de transubstanciação
a enlouquecer-me,
mas pondera lucidez.


A inquietude se desfaz
em cantigas medievais
e o amor se acorrenta,
se desvale, se deteriora,
se afoga e se materializa
em sofrimento fugaz.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Não quero prosa!



Não quero prosa!
Mas os versos que um dia ouvi.
Quero algo rimado,
piegas e cantado
que esteja além de nossas expectativas.


Sim, desejo a métrica clássica.
já que a ponte que construímos juntos
fora bloqueada.


Meus pensamentos visualizavam
sonetos de Vinícius de Moraes,
porém percebi que palavras
são fúteis e vazias
e que não me encaixava
naquele contexto.


Nossas vozes deixaram de existir
e um abismo se abriu entre nós.
O elo que nos ligava
fora corrompido e se enferrujou.
Sua ausência ainda doía,
embora tenha tentado pulverizar
meus sentimentos e emoções.


Restar-me-á, enfim, somente a dor, o vazio e o nada
para um dia emergir
da areia movediça
que sufocou-me
e fechou-me por completo,
deteriorando a esperança
que grudara em mim.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Diversão

Como um bando de ciganos
numa estrada
a vida que eu amo
é fazer música e jogar cartas
com os amigos.
Caminhamos em direção às estrelas,
buscando a verdadeira felicidade.
Será possível?
Não sabemos.
Buscamos diversão
e realizar puras fantasias.
Todavia você sabe realmente encontrar
a beleza astral:
as constelações do amor.

Cubismo Poético

Você ficou quadrada pelas retas a fora
medidas em círculo de amor.
Em sonhos retangulares; uma ideia caótica.

Mulheres moldadas às esculturas ibéricas,
enquanto os traços curvilíneos
provêm de máscaras africanas.
“Natureza morta com Garrafa e uma Faca”;
a matemática na literatura
a poesia fragmentada em cubos.

O “Balé Mecânico e Entreato”
nas histórias em quadrinhos
o triângulo das bermudas, o mistério!

A Torre Eiffel análoga As Moças de Avinhões;
guerreiros desenhados em tons sem claro-escuro,
impressas todas as festas arrabaldes.

Simbolismo craniano, em formas de cubos.
Cubos... cubos... cubos... redondos, quadrados...
Geometricamente hilários.

domingo, 16 de maio de 2010

Um novo período




Introduzir um período após um ponto final gera-me dificuldades, pois descobrir que palavras são apenas palavras e o que se encontra por trás delas é uma longa história.
Casei-me com quem acreditara na época ser o homem da minha vida. Vivíamos bem. Apareciam probleminhas ali e aqui, mas vivíamos e sobrevivíamos aos tremores do cotidiano. Depois de sete anos de casada, ele não me procurava como antes. Pensei que o problema era comigo. Só podia. Era o que pensava naquele triste e árduo momento. Tudo parecia estanque à minha imaginação.
Com o tempo meu marido passara a chegar tarde demais com suas roupas bastante amarrotadas e estranhas. No início fiquei encucada: era outra mulher ou mais uma de suas aventuras amorosas. Tudo iria passar, como antes. Mas não passou.
Sentia-me afogando em mares revoltos com grandes tempestades. Não sabia o que fazer de fato. Meu emprego mal pagaria as contas se resolvesse me separar.
Meus filhos começaram a perguntar pelo o pai e para aumentar o problema tinha engravidado um mês antes.
No início quando percebi que tinha engravidado sofri muito por não saber como prosseguir, mas contemplei a criação que germinava dentro de meu ventre com tamanha felicidade e louvei a Deus por isso. No entanto as lutas diárias aumentavam cada vez mais.
Imagino-me, com meus dois filhos e ainda grávida, a educá-los sozinha. Veio-me uma mera imagem acústica desse contexto e isso me deixou apreensiva e nervosa, pois não sabia de fato com quem contar nem o que dizer aos outros que sabia que meu marido gostava também de homens.
No início não desconfiava, mesmo quando ele levava os amigos para tomar uma cervejinha em nossa casa ou jogar baralhos. Ou até mesmo quando ia fazer sauna no clube que havia em nosso bairro. Até aí achava tudo normal. Minha mente não era tão turva o bastante para visualizar tal fato.
Confesso que passei a desconfiar que o príncipe encantado de minha adolescência não era príncipe nem sapo, mas uma Cinderela de calça. Ele não tinha o estereótipo do homem afetado nem afeminado, já que vivia malhando e se exibindo no espelho. Adorava, pois, mostrar o abdome definido e seus bíceps bem trabalhados e moldados. Ele se sentia o “saradão”.

       O dia amanheceu ensolarado e belo. Não havia uma nuvem no céu. E o sol reinava como rei diante daquele imenso azul. Tratava-se de um domingo de páscoa e eu ia almoçar na casa de meus pais, com meus dois filhos e meu marido. Mas infelizmente ele disse que ficaria em casa e faria um churrasco com os amigos. Irritei-me, logo de início, porque não queria ver minha casa, naquele dia comemorativo, bagunçada e ter que fazer novamente tarefas domésticas. Avisei-o mostrando minha desaprovação, mas não incitei uma desarmonia naquele momento. E deixe-o para lá. Mas frisei bem para não deixar minha cozinha desarrumada. Odeio ter que ficar lavando louça o tempo todo. Amo minha casa limpa e organizada. Não obstante, sabia que ele iria fazer uma desordem, uma vez que sempre a faz quando resolve fazer um churrasco em casa ou em qualquer outro lugar, mas principalmente em casa.
Antes de sair cumprimentou-me amorosamente. Em seguida, fui com as crianças para a casa de meus pais; porém, ao chegar lá, percebi que tinha esquecido em casa a caixa de bombons que tinha comprado para eles. Na hora fiquei chateada comigo mesma, até comentei com eles, mas como era cedo ainda para o almoço e de uma forma passaria o dia todo ali, não hesitei em pensar em voltar à minha casa.
Comecei a dizer à minha mãe na cozinha que deixaria as crianças ali com ela e passaria na feira para comprar umas frutas, pois iria fazer uma bela e incrível salada de fruta, contudo isso era pano de fundo para eu ir até minha casa e pegar a caixa de bombons que tinha esquecido em cima da geladeira. Assim tudo aconteceu.
Ainda sentia enjôos constantemente, mas eu queria fazer uma surpresa aos meus pais e não estava disposta a comprar outra caixa de bombom. E o mais engraçado que cheguei a pensar nessa hipótese, no entanto relutei e bloqueei tal pensamento, uma vez que permanecia obcecada por aquela caixa de bombons que tinha comprado.
Antes eu tivesse comprado outra caixa de bombom, mas não fiz isso. Ao chegar em casa, abrindo a porta normalmente, sem maldades e a procurar o que desejava, resolvi, não sei por que, passar um batom e a pentear os cabelos, como sempre faço ao sair de casa. Acho que é mania de mulher isso. Passar batom e pentear o cabelo sempre antes de sair. E ver a própria imagem no espelho para averiguar se estar pelo menos bonitinha ou para se sentir bonita mesmo. Ou para tentar se mostrar viva e atraente.
Então fui até o quarto e deparei-me com a cena mais constrangedora de minha vida: meu marido encontrava-se em nossa cama com outra pessoa. Fiquei imóvel. Pasma e estarrecida. Não houve reação alguma. Chocada e perplexa fiquei com tal visão. Ele, ao me ver, disse que não era aquilo que eu pensava e me pedia desculpas ciclicamente.
Naquele momento, estática e sem saber o que fazer ou até mesmo o que falar, sai do quarto e ele deixou seu amante (que já tinha se levantado da cama e parecia nervoso tanto quanto) vindo atrás de mim. De relance, ao sentar no sofá, disse três palavras apenas “Arrume as malas.” e em seguida alternei afirmando “Ou saio eu.”.
Parecia que um vendaval tinha acontecido naquele momento em minha vida, tirando-me de órbita e também o sossego. Jamais me imaginei ser traída. Não importa o contexto da traição, pois tautologicamente traição é traição e ponto.
Sofri muito. Chorei horrores e de forma copiosa. Nunca desconfie dele e nunca acharia que passaria por tal situação forte e grotesca. Fui traída mesma. Naquele instante não importava quem estava sob os lençóis, pois não confiaria mais nele nem conseguiria olhar, como antes, em seus olhos.
Foi um dia angustiante. Mas naquele dia ainda voltei à casa de meus pais para almoçar com eles, com as frutas que tinha comprado ainda na feira. Nem sei como que as escolhi. Foi terrível para mim. Sentia-me exaurida com o que presenciei. Fiz tudo na cozinha calada. Sei que minha mãe tinha notado algo de diferente comigo, pois ela me conhece na palma de sua mão. Tentei me acalmar o máximo, porém não agüentei e desmanchei-me toda. O choro veio à tona causando uma forte erupção de lágrimas. Minha mãe foi a primeira a saber do ocorrido e depois meu pai, o qual ficara atordoado e queria tomar uma atitude machista, mas logo disse que violência só pioraria e que não desejaria que ninguém fizesse algo impensado, agressivo e que eu já tinha agido de forma sábia e madura em relação à traição. Até porque não faço o tipo de “rodar a baiana”, de “baixar o barraco” ou a que “desce do salto”. Jamais iria me expor ao ridículo.
Foram meses sofrendo. Não posso negar que sentia falta do meu marido em minha cama. Infelizmente agora é só minha. Havia um vazio imenso ao meu lado, mas sobrevivi ao caos e procurei não me sentir sozinha, junto com amigos, filhos e pais. A família foi quem mais me apoiou verdadeiramente durante esta nova fase de minha vida. Foi dura. Mas tinha que continuar. Confesso ainda que o amava muito, mas preferiria ficar sem um parceiro a ter que me sujeitar a uma Cinderela de calça ao meu lado. Queria mesmo alguém autêntico. Alguém que nunca tivesse se escondendo dentro de um armário para mostrar ainda ao universo que o rodeia sua masculinidade (ou falsa). Jamais iria imaginar que o meu príncipe encantado da adolescência, por meio de suas lindas juras de amor, pudesse me decepcionar profundamente.
Desmoronei-me por completo, entretanto antes só que mal acompanhada. Não quero uma Cinderela comigo, uma vez que sempre desejei ser a Cinderela. Por isso, refaço-me a cada segundo. O tempo não pára. Tive que estabelecer prioridades e metas em minha vida e segui-las a fundo. Sem esmorecer. Foi difícil e ainda é. Mas não podemos retroceder nem viver de passado ou plantar ilusões em nossa caminhada. Nessa caminhada eu tenho o poder de escolher a melhor estrada. Sou eu quem escolhe as árvores, afirmando para mim mesma se são frutíferas ou não, para serem plantadas. Sou eu quem constrói e estabelece o devido asfalto ou se a prefere que seja de estrada de chão. A decisão é minha! Não compete a ninguém viver por mim. Sou eu quem tem que viver por mim mesma, pois sou única e exclusiva na face da Terra. Sei que problemas haverá, todavia temos que enfrentá-los sabiamente. Assim o período termina a fim de que eu possa virar a página e escrevê-la como eu bem entender. A construção de uma nova página será exclusivamente minha e de mais ninguém. Não existe destino nem acaso. Ou tudo é implantado por Deus ou, de fato, é decisão humana. Sou eu quem tece as escritas de minha vida a partir do momento que desejo escrevê-las e vivê-las. Sei que Deus proverá futuramente, mas não se pode ficar de braços cruzados esperando o mundo girar e o tempo – que já escasso – chegar ou findar-se. Não se pode ficar remoendo e se ressentindo a todo o momento, visto que precisamos dar continuidade e a prosseguir, mesmo com enfados e tristezas. Não se pode deixar de viver por causa de outrem.
O mais difícil foi perdoar, uma vez que ele era ainda o pai dos meus filhos. Mas não o desejava mais por perto. Faltava-me pulverizá-lo completamente. E, aos poucos, percebi que eu era mais importante para mim.
Assim, virei a página, deletei o que não prestava, restitui meu horizonte de saber e procurei me reconstruir do pesadelo o qual vivi. Mas não foi fácil. Nada é fácil. Não obstante, sobrevivi para buscar verdadeiramente a felicidade.