quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

As vozes: coros dos descontente


            __ Matei-a sem piedade. Foi com um tiro certeiro na cabeça, pois ela desgraçara minha vida quando escrevera uma maquiavélica história sobre meu filho amado. Usei da força bruta diante daquela criaturinha tão frágil, tão meiga, tão doce e tão delicada. Isso tudo esteticamente não mostrava seu caráter nem o teor forte de sua pena.
            Olhava-me no espelho e via aquela figura angelical refletida parecendo-me com seu verdadeiro ato de criação e minhas entranhas desejava parir para que ela desse vida a mim e ao filho amado, dois personagens que se entrecruzam e entrelaçam entre si.
            Toda substância que se mistura a uma polpa química de oxigênio, água, sangue e ossos combinavam na construção desses dois personagens que almejam explodir e implodir sentimentos mascarados e sub-reptícios oriundos do ato de escrever.
Nunca vi tanta necessidade de nascer, de viver e de brotar emoções e anseios nessa amalgamada essência dissonante que terminara em assassinato – assim pensara Ana M. P. na construção de seus pensamentos.
Mesmo sabendo que iria morrer Ana M. P. continuava seus escritos e a explorar o que sabia de melhor para se defender, mesmo que seja do seu ato criador sobre uma voz masculina tão intrigante.
Ele era policial da informação. Robusto, meio barrigudo, com uma barba suave que tinha que fazer semanalmente. Mas tinha que dar vida a essa personagem porque sairá não somente de sua mente mais também de seus tímpanos. No início ela tentava defenestrá-lo, mas tudo era em vão. A voz desse policial era tão forte, tão intensa, tão grave, tão viva, que ela preferira a tinta e o papel para expulsar o demônio que se encontrava a espreita.
Não obstante, o exorcismo nada funcionava e ela percebera que escrever era a forma de resistir e construir uma história profunda sobre um elo entre policial e filho amado.
Não se podia mais hesitar, pois o mundo real invadira a ficção ou a ficção invadira seu mundo real. Tudo se entrelaçavam num emaranhados de palavras para dar existência a esses dois personagens sem rostos, sem conhecimentos profundos, sem idades, sem expressões e sem pudor. Ana M. P. sabia que não haveria sequer um pouco de lisura na construção dessa história, já que sabia que seus personagens sem faces e sem muitas descrições não iriam tão longe quando ela fosse condenada pelos seus atos de escrever.
O choro intenso daquele pai que pronunciara o nome do filho amado soava em seus ouvidos como um acorde desafinado, que se mesclava a uma ira, a uma raiva, a um ódio e uma fúria imensa que solava uma canção em forma de réquiem e vingança diante de uma escritora fracassada que conjurara seu filho amado a uma futura prisão existencial e ao limbo impessoal dos prazeres terrenos.
Por mais que Ana M. P. tivesse pena desse pai, que jogara o próprio filho à cova dos leões, ela fora instigada a descrever esse ato brutal com o alento de seu trabalho. Batia um remorso nela que contagiava o papel, mesmo assim ela tinha que se libertar dessa cena a fim de que seus poucos leitores pudessem penetrar em mais um enredo contaminado por vilanias e bem-feitores. Embora nessa história os protagonistas sejam o policial e seu filho amado, ela precisava dar vida e uma direção para ambos.
Nomes? Esses dois personagens não possuem. Trata-se de dois espectros que a assombram com muito furor e expeli-los seria o melhor remédio para a transformação de um tecido ficcional que se embaralhava com a realidade dela. Ana M. P. não se podia mais esconder nem deixar que esses personagens a enlouquecesse terrivelmente sem compostura nenhuma.
Ana M. P. sabia que iria morrer por um dos seus personagens, no entanto de forma determinada e cuidadosa fazia o registro de seus pensamentos e dessa voz poderosa que saia do seu ventre materno.
__ Esta desgraçada escreveu sobre meu filho amado! Deu-nos vida em abundância.
Assim começara o duelo entre escritor e personagens. A metalinguagem esvaia na performance de Ana M. P. enquanto ela escolhia os melhores vocábulos para preencher a lacuna que se tornaria uma excelente discussão entre seus poucos leitores, seus personagens confabulavam contra ela de forma escusa.
Após engendrar vida aos protagonistas de sua história, Ana M. P. descobrira que seu universo tinha sido invadido e que realidade e ficção se confundiam, pouco a pouco, com as ameaças do policial, visto que ela não queria ter vida, ela não desejava uma morte social, não ansiava expor seu filho amado, mas mesmo assim a escritora resolveu desvendar esse mistério e ir a fundo a seus estudos metalinguísticos, pois seria um conto em que um personagem mataria seu próprio autor.
Depois de narrar as angústias do policial que entregara o filho à morte, Ana M. P. começou a andar pelas ruas com certo toque de receio, parecia meio afugentada por contar algo que tinha que ser guardado a sete chaves, mas que descobrira sozinha quando quis criar um universo e um cosmo que se aproximasse do real e da escrita.
O policial num desespero inenarrável começou a afirmar que amava muito seu filho, mas nada adiantara porque ele se tornará um personagem de ficção versus realidade. E tudo parecia uma afronta e aquele pai desgraçado fora terminar seu ato tão sórdido durante uma tarde ensolarada de inverno. Era um frio causticante. Ana M. P. alimentava os pombos da praça enquanto fora abordada por um brutamonte que lhe começara a surrar desenfreadamente. Muitos assistiam sem reação aquela barbárie, mesmo assim permitiram que a escritora fosse surrada por um dos seus personagens do poder público. Ele saíra diretamente da folha e ganhara vida com a finalidade de matar aquele que a criou. Era uma luta desigual entre uma mulher fraca com um homem armado.
O sangue escorria no corpo da vítima, que fora acusada por escrever histórias bastante reais, porém poucos acreditavam nela. Tudo acontecera de forma tão rápida e tão estúpida que Ana M. P. não teve tempo de se defender nem de gritar. Foi tudo a queima roupa e à revelia.
A bala adentrou o universo da palavra e da vida. Tudo compelia ao policial o uso da força para se autodestruir, pois à medida que o autor se desfaz seu personagem morre com ele para que o campo social dissonante apodreça na escrita.

E tudo se desfez: autor e personagens. Ambos não tiveram escolhas para viver livres nem regozijar por momentos de afetos, pois essa história não podia ter final feliz. O filho amado jamais perdoou seu pai e esse morreu de remorso e de dor pela eternidade conjurada numa espécie de metáfora e num lugar onde se lançam coisas de que não se faz caso. O vínculo que ambos tinham fora arranhado e quebrado para sempre, uma vez que a confiança entre eles feriu-se, acabou-se, tirou para si com violência, arrebatou-se por completo o amor entre os dois e virou pó após o massacre da criação.

18 comentários:

  1. Jasanf, foi muita alegria ver você no meu blog
    agora sim entendo o quanto é bom esperar por um amigo.
    Fico feliz amigo querido quanto tempo e quantas saudades.
    Um abraço carinhoso.
    Feliz 2014 Um abençoado Domingo.
    Evanir.

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  2. Realidade e ficção se misturam em seu bem escrito conto. Nossa imaginação percorre caminhos diversos, ao lê-lo. O escritor cria e destrói seus personagens, em seu mundo de ilusão, que nem sempre aborda apenas o imaginário.
    Desejo-lhe um 2014 de muitas alegrias e inspiração, Jasanf. Bjs.

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  3. parei com as postagens no faces do poeta, por motivos mt pessoais, mas jamais poderia deixar de escrever, então criei o beco. não divulguei o blogue, pois queria um espaço mais intimista, com pessoas que realmente fazem a diferença. gostei que o achasse, vc é um escrevedor talentoso. meu tempo ficou escasso, quase não consigo comentar nos blogues amigos, mas sempre que encontro um tempinho estou lendo os escrevedores que gosto, como aqui. vc fez um conto que é de cinema. ótimo msm, parabéns. um grande 2014 pra vc e os seus, a gente vai se lendo. bjão

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  4. Oi Jasanf,
    Tenha um ano muito feliz!
    Continue nos encantando, com criatividade e personalidade de sempre!
    Beijos!

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  5. Forte. É a palavra que encontro ao ler o que escreveu.

    cvb

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  6. Jasanf, Amigo

    Um Conto com História dentro. Bem arquitectado e de construção sólida.
    Parabéns.


    Abraços



    SOL

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  7. Oi Jasanf

    Fiquei imensamente feliz em "revê-lo"!

    As linhas da ficção e da realidade se entrelaçando, como comumente acontece. Vivemos em um mundo tão surreal, a violência tem escrito cenas tão absurdas que por vezes nos parece que a ficção não conseguiria escrever tamanho disparate.

    Muito criativo e instigante seu conto.

    Feliz ano novo, muitas alegrias para você!

    Abraços

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  8. Olá, como tem passado?
    Já com algum atraso,
    venho desejar-lhe um feliz ano de 2014.
    Saudações poéticas!

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  9. Olá! Adorei o conto! Essas vozes realmente nos perseguem, não? Parabéns! Beijos.

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  10. Tentava "rever" uma ressurreição! Não aconteceu como não acontecem milagres após os "contos" serem contados.


    Abraços

    SOL

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  11. Já quase no tempo da Ressurreição, "contava" com mais Contos (ressuscitados) tão importantes quanto este.
    Que a liberdade seja a tua escolha. Nem sempre se podem transmitir sentimentos privados.
    Desejos de Felicidades.


    Abraços



    SOL

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  12. Olá!

    passar aqui é garantia de uma boa leitura!

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  13. Oi Jasanf!
    São tantos os blogs que sigo, às vezes por coincidência reencontro blogs que amo. Adorei o conto e estar aqui novamente! Beijos!

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  14. Muito bom o seu blog, estive a percorre-lo li alguma coisa, porque espero voltar mais algumas vezes,
    deu para perceber a sua dedicação em partilhar o seu saber.
    Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante.
    E se gostar e desejar comente.
    Que Deus vos abençõe e guarde.
    António.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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  15. Que pena que não está postando! Falta de tempo?
    Fiquei muito feliz com sua visita. Bjs.

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