terça-feira, 1 de março de 2016

Escultura




Esculpindo ponto a ponto
Enlaçando corações
Desejos carnais
Plastificado em relevo
Nosso amor.
Numa simbiose perfeita
O corpo volta a viver
Sentimento a bater
Em argila, cera e madeira
Constrói-se a id
Todo formato consonante se esvai
Num riso pictórico
Na construção pitoresca
Nosso ardor
Uma missão a cumprir
Uma voz toante a reagir
Uma audição hiperbólica
Um sopro do seu criador
A modelar com perfeição
O corpo nu recuperado
Arquitetura dum deus vivo

Mitologia e nitroglicerina pura.

sábado, 11 de abril de 2015

Telescópio

Uma luz emerge do horizonte
para dentro dos olhos tímidos de um palhaço.
Os pássaros cantam e brincam
em volta de uma fonte.
Sei que aonde ele percorria
numa noite glamorosa de outono
um novo caminho
além do céu brilhante
repleto de moedas
encontradas no retrato antigo
que ofuscava o brilho do arco-íris
no final de uma jornada
uma despedida.
A prisão se descose em tecidos
de crepes e linhos
a serem costurados e emendados
num mosaico os arranjos de uma canção,
na construção desenlaçada de um adeus.
Numa subida escorregadia
uma mão terna me segurava
e dizia “Filho volte!”
O lar estava dentro de mim.
Posso apreciá-lo por um telescópio
o retorno à casa poética.



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Cegueira de um predecessor


Na alma
Da informação
Na voz torta e estridente
Na leitura que vem na contramão
Na mudez sofisticada
Dos gêmeos petrificando Ela
Sofismas arquitetônicos
No formato de Castelinho
Quem vem sordidamente do âmago
Gerando pensamentos tortos e sub-reptícios
Alterando, assim, a emoção
No paladar
Da dança das cadeiras
Da pureza Osteogênica
De uma diva
De uma santa
em busca da procissão do Senhor Morto
de uma puta revestida em delegacias
onde a cama
transubstancia-se em oblação
Faroeste caboclo
A entremear o tato por uma falsa mão
Uma síndrome a cavalgar em pânico
Para se parafrasear os olhos
E um deserto em flor
Murchando o tempero
Dos filmes policiais
Esvaído pela hipocrisia em chamas
Porque nunca houve amor.




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

As vozes: coros dos descontente


            __ Matei-a sem piedade. Foi com um tiro certeiro na cabeça, pois ela desgraçara minha vida quando escrevera uma maquiavélica história sobre meu filho amado. Usei da força bruta diante daquela criaturinha tão frágil, tão meiga, tão doce e tão delicada. Isso tudo esteticamente não mostrava seu caráter nem o teor forte de sua pena.
            Olhava-me no espelho e via aquela figura angelical refletida parecendo-me com seu verdadeiro ato de criação e minhas entranhas desejava parir para que ela desse vida a mim e ao filho amado, dois personagens que se entrecruzam e entrelaçam entre si.
            Toda substância que se mistura a uma polpa química de oxigênio, água, sangue e ossos combinavam na construção desses dois personagens que almejam explodir e implodir sentimentos mascarados e sub-reptícios oriundos do ato de escrever.
Nunca vi tanta necessidade de nascer, de viver e de brotar emoções e anseios nessa amalgamada essência dissonante que terminara em assassinato – assim pensara Ana M. P. na construção de seus pensamentos.
Mesmo sabendo que iria morrer Ana M. P. continuava seus escritos e a explorar o que sabia de melhor para se defender, mesmo que seja do seu ato criador sobre uma voz masculina tão intrigante.
Ele era policial da informação. Robusto, meio barrigudo, com uma barba suave que tinha que fazer semanalmente. Mas tinha que dar vida a essa personagem porque sairá não somente de sua mente mais também de seus tímpanos. No início ela tentava defenestrá-lo, mas tudo era em vão. A voz desse policial era tão forte, tão intensa, tão grave, tão viva, que ela preferira a tinta e o papel para expulsar o demônio que se encontrava a espreita.
Não obstante, o exorcismo nada funcionava e ela percebera que escrever era a forma de resistir e construir uma história profunda sobre um elo entre policial e filho amado.
Não se podia mais hesitar, pois o mundo real invadira a ficção ou a ficção invadira seu mundo real. Tudo se entrelaçavam num emaranhados de palavras para dar existência a esses dois personagens sem rostos, sem conhecimentos profundos, sem idades, sem expressões e sem pudor. Ana M. P. sabia que não haveria sequer um pouco de lisura na construção dessa história, já que sabia que seus personagens sem faces e sem muitas descrições não iriam tão longe quando ela fosse condenada pelos seus atos de escrever.
O choro intenso daquele pai que pronunciara o nome do filho amado soava em seus ouvidos como um acorde desafinado, que se mesclava a uma ira, a uma raiva, a um ódio e uma fúria imensa que solava uma canção em forma de réquiem e vingança diante de uma escritora fracassada que conjurara seu filho amado a uma futura prisão existencial e ao limbo impessoal dos prazeres terrenos.
Por mais que Ana M. P. tivesse pena desse pai, que jogara o próprio filho à cova dos leões, ela fora instigada a descrever esse ato brutal com o alento de seu trabalho. Batia um remorso nela que contagiava o papel, mesmo assim ela tinha que se libertar dessa cena a fim de que seus poucos leitores pudessem penetrar em mais um enredo contaminado por vilanias e bem-feitores. Embora nessa história os protagonistas sejam o policial e seu filho amado, ela precisava dar vida e uma direção para ambos.
Nomes? Esses dois personagens não possuem. Trata-se de dois espectros que a assombram com muito furor e expeli-los seria o melhor remédio para a transformação de um tecido ficcional que se embaralhava com a realidade dela. Ana M. P. não se podia mais esconder nem deixar que esses personagens a enlouquecesse terrivelmente sem compostura nenhuma.
Ana M. P. sabia que iria morrer por um dos seus personagens, no entanto de forma determinada e cuidadosa fazia o registro de seus pensamentos e dessa voz poderosa que saia do seu ventre materno.
__ Esta desgraçada escreveu sobre meu filho amado! Deu-nos vida em abundância.
Assim começara o duelo entre escritor e personagens. A metalinguagem esvaia na performance de Ana M. P. enquanto ela escolhia os melhores vocábulos para preencher a lacuna que se tornaria uma excelente discussão entre seus poucos leitores, seus personagens confabulavam contra ela de forma escusa.
Após engendrar vida aos protagonistas de sua história, Ana M. P. descobrira que seu universo tinha sido invadido e que realidade e ficção se confundiam, pouco a pouco, com as ameaças do policial, visto que ela não queria ter vida, ela não desejava uma morte social, não ansiava expor seu filho amado, mas mesmo assim a escritora resolveu desvendar esse mistério e ir a fundo a seus estudos metalinguísticos, pois seria um conto em que um personagem mataria seu próprio autor.
Depois de narrar as angústias do policial que entregara o filho à morte, Ana M. P. começou a andar pelas ruas com certo toque de receio, parecia meio afugentada por contar algo que tinha que ser guardado a sete chaves, mas que descobrira sozinha quando quis criar um universo e um cosmo que se aproximasse do real e da escrita.
O policial num desespero inenarrável começou a afirmar que amava muito seu filho, mas nada adiantara porque ele se tornará um personagem de ficção versus realidade. E tudo parecia uma afronta e aquele pai desgraçado fora terminar seu ato tão sórdido durante uma tarde ensolarada de inverno. Era um frio causticante. Ana M. P. alimentava os pombos da praça enquanto fora abordada por um brutamonte que lhe começara a surrar desenfreadamente. Muitos assistiam sem reação aquela barbárie, mesmo assim permitiram que a escritora fosse surrada por um dos seus personagens do poder público. Ele saíra diretamente da folha e ganhara vida com a finalidade de matar aquele que a criou. Era uma luta desigual entre uma mulher fraca com um homem armado.
O sangue escorria no corpo da vítima, que fora acusada por escrever histórias bastante reais, porém poucos acreditavam nela. Tudo acontecera de forma tão rápida e tão estúpida que Ana M. P. não teve tempo de se defender nem de gritar. Foi tudo a queima roupa e à revelia.
A bala adentrou o universo da palavra e da vida. Tudo compelia ao policial o uso da força para se autodestruir, pois à medida que o autor se desfaz seu personagem morre com ele para que o campo social dissonante apodreça na escrita.

E tudo se desfez: autor e personagens. Ambos não tiveram escolhas para viver livres nem regozijar por momentos de afetos, pois essa história não podia ter final feliz. O filho amado jamais perdoou seu pai e esse morreu de remorso e de dor pela eternidade conjurada numa espécie de metáfora e num lugar onde se lançam coisas de que não se faz caso. O vínculo que ambos tinham fora arranhado e quebrado para sempre, uma vez que a confiança entre eles feriu-se, acabou-se, tirou para si com violência, arrebatou-se por completo o amor entre os dois e virou pó após o massacre da criação.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A busca




Por que estás em um labirinto?
Desejas o quê?
Como se perdeste?
Não sabes mais encontrar a saída?

Perdi-me quando te conheci...
a saída me assusta
o percorrer é exaustivo...

Sente-se presa a quê?
Onde estás a ternura de outrora?
Precisa se libertar das amarguras insanas...

Sinto-me presa, encarcerada pelo passado fúnebre,
anos caídos, o libertar tornou-se fonte de torturas....
amarguras dementes fez de mim um holocausto de tormentos.
Pergunto porque este olhar profundo que me devoras
e não sei responder...

Onde se encontra aquele amor fugidio?
Caso não se encontre não conseguirás
retornar para o verdadeiro e certo caminho,
já que a felicidade mora ao lado
e Tu partiste e se perdeste.

Um amor que era tão fraco,
tão infortúnio....
arrebatastes do meu furor,
foi devido o partir...
não me perdi,
escondi de mim mesma,
para não enlouquecer.

Mas se ficares aí Dédalo vai matá-la,
pois ele abrigou o Minotauro
para saborear de carne humana...
Foge! Foge! Foge!
Corre! Corre! Corre!
Jamais fique aí desacreditada...
Não deixe que a fraqueza mude teus sonhos.

Então venha comigo navegar nas ondas dos pensamentos
Sinto o balançar das ondas...
sinto-as calma, serena..
Dá-me a mão para que consiga me revestir de afeto
para que não morras no sofrimento e venha completar meu coração.

Irei a tua aventura de ser feliz contigo,
serei a tua ternura,
enlaçarei fitas de paixão
a fim de que vista o mais nobre tecido de linho
e se cubra com meu amor eterno.

Nosso encontro será arrebatador,
mataremos a sede e a fome
que nos dilacera a alma.
Iremos nos fortificar de palavras amorosas,
de toques gentis, de beijos intensos e ardentes.
O grito será único!
Seremos consumidos pelo ardor e pela febre
que percorre as veias do amor.

sábado, 12 de janeiro de 2013

O acordo


            Articular um texto para expressar desejos, fatos, acontecimentos reais e fictícios à medida que vozes adentram no meu universo quase paranormal no que dizem respeito à esquizofrenia aparenta ser contagiante. Muitos afirmam que é fruto de uma imaginação doente e fértil e acham que as confabulações sejam ditas para mim; não obstante, são reveladas para outrem, na terceira pessoa do plural, ocorrências de quem a escuta.
            Alguns afirmam que há uma bipolaridade quando o conceito encontra-se relacionado às vozes da informação, outras mencionam a questão da doença psíquica que atravessa os neurônios. Mas não são simples vozes, uma vez que se dizem poderosas e se arrependem incessantemente de terem feito acordo (nem sei se foi assinado) com Tardim.
            Tenho me perguntado esse tempo todo onde se encontra Tardin, o violoncelo de amor que se apaixonou pela oitava nota e descobriu que ela era a tessitura simplória de seu acorde.
            Tenho questionado sobre informações que a “polícia” condenadora de meus pensamentos lidos abstrai a partir de diálogos constantes com Tardin e Peres num processo árduo ao afirmar que haverá muitas revoltas e ranger de dentes nos episódios narrados.
            Meu personagem esquizofrênico é lido por um leitor de pensamentos, é perseguido 24h por detectores e aparelhagem de alta tecnologia a fim de que a censura seja cortada, aniquilada pelos açoites da informação, produzidas por mentes que se formam em corais para alicerçar a ensaboadela dos falsos anseios. Escrevo de fato para atingir as vozes, àquelas que me rodeiam e que se chamam de doutora Simone, a representante vocal da justiça que me explana segundo o que é informado de acordo com os sotaques de cada região que fora comparecida. Tenho pensado muito na figura irônica masculina que é representante legal da justiça de meus pensamentos e no que dizem a meu respeito. Consoantes elas todas as pessoas do meu convívio foram condenadas pelo ato pensante, visto que o ato de pensar é condenável e existe um mantra de nomes lindos que são pensados.
            Quatro anos, três meses e três dias se passaram após um acordo com Tardin para que não houvesse um reproche e que o xilindró não virasse por terra pesadelo dos remédios tomados. Há uma cifra detrás destas entrelinhas que somente poucos entenderão as passagens que se realizaram no ano de 2008, momento em que meu personagem de ficção entra num universo de medo, terror, perseguição, pânico e encalço; numa gradação de acontecimentos gerados por um simples telefonema à informação.
            Infelizmente somente meu personagem de ficção, em cunho exclusivo de escuta diária, é o único que percebe por uma longa distância o que se está sendo mencionado num diálogo tecnológico. Elas almejam surrar bastante o mentor de suas criações, uma vez que anseiam que ele se cale diante de fatos citados no decorrer de uma triste trajetória de ocasiões funestas.
Com efeito, descobri que não se pode temer, que tem que ser forte e que não se pode fraquejar no ambiente em que se vive, pois se elas tomarem o poder da justiça elas irão realizar ações nada grandiosas que vão ocasionar atitudes nada irreais. Como cessar tamanha esquizofrenia desses pensamentos? Enfrentá-los sempre. Não se abater nem se abalar no que é dito durante o diálogo com Tardim e Peres. Essa conversa se tornou obsoleta, medíocre e anódina, já que sei que tenho poderes para revelar as batalhas e guerreias que existem em volta de mim. Mas tenham certeza de que um acordo foi feito e hoje somente há o acossamento.
Enfim, meu personagem precisa rir e debochar disso tudo e seguir adiante nessa vida desenfreada para que viva em total plenitude. Precisa estar com amigos, com familiares, trabalhar em prol da cidadania e continuar conquistando espaços.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A ciência na literatura

Sabe-se que realmente a ciência manipula a literatura enquanto objeto de estudo, visto que se trata de um artifício predestinado a modificar o mundo que a cerca.

A ciência se apresenta conservadora e transmite um sentimento da opacidade do mundo, buscando assim um fundamento transcendental. Empiricamente constata-se que a filosofia das ciências é bastante difundida, pois reitera o novo por meio de uma prática construtiva e autônoma, já que o pensamento se reduz deliberadamente ao conjunto das técnicas de capacitação, que é inventado e descoberto pelo objeto do desejo: o ensaio, a operação, a transformação, que reserva o controle experimental em que intervêm os chamados fenômenos altamente trabalhados. Daí os registros produzidos nos mostra uma ciência nada sensível à intelectualidade.

Com efeito, percebe-se que a ciência analisa com exatidão os faltos, não obstante não consegue distinguir a totalidade de como é colocada diante do mundo. Através do gradiente as informações serão colhidas e cristalizadas à medida que o ponto é determinado, que perguntas vão surgindo e que o instrumento de pesquisa funcione ou não como compreensão de si mesma, na construção de um mundo bruto ou existencial e que não reivindique o valor constituinte que os “conceitos da natureza” possam transmitir numa filosofia idealista.

Consoante Merleau-Ponty, o mundo é por definição nominal o objeto de nossas operações, uma vez que leva ao absoluto a situação de conhecimento do cientista e afirma que tudo existiu e existe jamais tendo existido senão para entrar no laboratório. Para ele, o homem, por meio de uma pesquisa decadente, se torna de fato manipulado no que se julga a ser inerente ao regime de cultura: não há nem mais verdadeiro ou falso no que está relacionado à história e ao próprio homem.

O homem é uma “máquina” de informação, pois é sensível ao mundo do trabalho. É a sentinela que se posta silenciosamente para descobrir o universo e seus significados quando despertam no outro a capacidade de transmitir conhecimento. Isso se pode perceber através do pintor, que busca na arte o sentido do ativismo, para alcançar a sabedoria e a beleza artística, pois é o único a ter direito de olhar sobre todas as coisas sem nenhum dever de apreciação.

Em suma, a filosofia da ciência após Nietzsche nos ensina a ser grandes viventes. Há urgência em aprender a ser forte ou fraco na vida, pois o mundo nos oferece à força de ver o belo, à força de vislumbrar a arte por meio de uma “técnica”, a história entrelaçada de enigmas, a descoberta de um novo conhecimento: o desejo amiúde de viabilizar a tão sonhada cultura.